Nox
Jorge molder
2007-01-15
Pareceu-me vê-lo ler com atenção todos os papéis que lhe entreguei. Não o posso garantir. Afinal eu conhecia mal todos os contornos desta situação. Eu próprio pouco sei dizer a meu respeito neste conjunto tão delicado de circunstâncias. Fez-me então algumas perguntas que me deixaram crer, pelo seu ajuste, que a minha suposição de que prestara atenção aos papéis era verdadeira. Perguntou-me como é que eu estava tão certo do significado de CD se apenas me baseara em insinuações e numa mera coincidência. Também referiu não entender as minhas atribuições arbitrárias de significados: corpo diplomático, CD Rom, Duplo de D. e por último Marco Pórcio Catão e essa história de Cartago delete. Tudo, para falar verdade, lhe parecia um disparate. Também não se esqueceu de pôr o dedo no facto de eu ter afirmado “em todo o caso seria double-face e a minha fraca capacidade de resistir a coisas tão óbvias é sobejamente conhecida”. Achava muito turva esta minha afirmação. Mais que turva, achava-a caricata. Pediu-me que fizesse um esforço para não estar sempre a falar no que antes acontecera e procurar, mesmo com sacrifício, concentrar-me no presente. Pareceu-me, colocando-lhe a leitura dos papéis tamanhas dúvidas, e não apenas, chegado o momento de lhe contar toda a verdade. Falei-lhe então de todo o trabalho. De como surgira e fora crescendo e a relação que fora entretecendo com a vigília, o sonho e todos os outros estados de alma nossos conhecidos.Confessei-lhe um pequeno pormenor, talvez ridículo, ligado a toda esta preparação: ter pensado usar uma conversa frente a um espelho de alguém que interroga a sua própria imagem perguntando-lhe: estás a falar comigo? Creio que se tratava de um anúncio de preservativos. Respondeu-me que a minha conversa o aborrecia, que era de facto ridícula, e lhe fazia sentir saudades da madrasta da Branca-de-Neve. Olhou-me nos olhos. Pareceu-me. E pediu-me que lhe contasse tudo o que sabia sobre a palavra urgência. Senti-me de repente desfalecer, não porque perdesse as forças ou estivesse a sofrer qualquer outro padecimento, mas por que de repente e usando apenas uma única palavra ele me empurarrara para uma situação limite. Tive de lhe contar que ouvira há bem pouco alguém falar de urgência, alguém que me encantara por me despertar um súbito sentimento de antecipação. Era assim a história: o escritor Herman Broch (não era só escritor, mas de momento isso não nos interessava) falava da urgência de terminar à pressa um livro para o ir colocar ainda a tempo na biblioteca de Alexandria a fim de ser devorado pelo conhecido incêndio. Os seus olhos brilharam, cresceram num fulgor que quase me assustou e disse: percebo agora o seu trabalho, chama-se afinal nox. Veja no diccionário. E retirou-se sem dizer qualquer outra palavra. Tirei os óculos e voltei o olhar do teclado do computador para a janela onde a a luz sofrera subitamente uma pequena alteração.
Jorge Molder
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