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Comportamento Animal
Nuno Faria
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Ao Ângelo, amigo comum de tan­tas con­ver­sas

Nota prévia

É uma ques­tão de movi­men­to, cada vez mais ínfi­mo, nas ima­gens de Jorge Mol­der. Trata-se de um tra­ba­lho que, con­tra­di­zen­do a sua apa­rên­cia, opera no campo da des­con­ti­nui­da­de, por peque­nas falhas, por peque­nas per­cep­ções, e em que as ima­gens se cons­ti­tu­em inva­ri­a­vel­men­te como limiar. Como se, moven­do-se, o autor denun­cias­se o seu lugar e tom­bas­se, no sen­ti­do meta­fí­si­co do termo, em ple­no campo de bata­lha, tra­í­do pela apa­rên­cia da sua pró­pria som­bra. Dizer ainda que, embo­ra mar­ca­do por uma reco­nhe­cí­vel e per­sis­ten­te cons­tân­cia temá­ti­ca, se trata de um dos mais mis­te­ri­o­sos e inson­dá­veis uni­ver­sos auto­ra­is que nos é dado conhe­cer.

Con­si­de­ran­do a espe­ci­fi­ci­da­de do pre­sen­te texto, este não é o espa­ço para uma aná­li­se dia­cró­ni­ca do per­cur­so de Jorge Mol­der. Impor­ta, no entan­to, enfa­ti­zar duas coi­sas: que Com­por­ta­men­to Ani­mal é uma série que leva ao limi­te as ques­tões habi­tu­al­men­te tra­ta­das pelo autor e que o pre­sen­te texto, se não sub­su­me o tra­ba­lho de Mol­der, pre­ten­de ilu­mi­nar o ter­ri­tó­rio que ele vem cons­tru­in­do.

A foto­gra­fia é para mim, de um certo modo, o lu­gar

do Juízo Uni­ver­sal, repre­sen­ta o mundo como ele apa­re­ce no últi­mo dia, o dia da cóle­ra.

Gior­gio Agam­ben

 

 

0.   A queda. Há um momen­to no tra­ba­lho de Jorge Mol­der que marca deci­si­va e irre­ver­si­vel­men­te uma rup­tu­ra. Rup­tu­ra com aqui­lo que ficou para trás, rup­tu­ra com a foto­gra­fia enquan­to ima­gem, rup­tu­ra com a ima­gem de si. Esse momen­to é o momen­to da queda e dá-se, em 1996, com a série Ana­to­mia e Boxe, que marca defi­ni­ti­va­men­te a pas­sa­gem de uma prá­ti­ca de auto-retra­to para uma refle­xão em torno da ques­tão do duplo1.

Essa pas­sa­gem cons­ti­tui-se enquan­to mise-en-âbime. Enquan­to queda. Se repre­sen­ta­ção hou­ves­se, em Ana­to­mia e Boxe e nos tra­ba­lhos que se seguem, seria uma repre­sen­ta­ção em abis­mo, sem dis­tân­cia nem inte­ri­or. Será então, a par­tir de aqui, um tra­ba­lho sobre aqui­lo que é exte­rio­ri­da­de em si, sobre aqui­lo que se mani­fes­ta enquan­to alte­ri­da­de. Na arte como na vida, na medi­da em que, fazen­do a eco­no­mia de ques­tões prá­ti­cas, tais como a faci­li­da­de de se ter enquan­to mode­lo sem­pre à mão e a capa­ci­da­de de con­tro­lar com mais exac­ti­dão o pro­ces­so de fabri­ca­ção da ima­gem1, não é insig­ni­fi­can­te que seja o pró­prio Jorge Mol­der o figu­ran­te das suas foto­gra­fi­as. De facto, há como que uma cor­po­ri­za­ção que se dá por via da trans­fe­rên­cia para aque­le que faz a expe­ri­ên­cia da ima­gem.

Assim, com­pre­en­de­mos que o esta­tu­to do duplo na fo­to­gra­fia de Jorge Mol­der não se colo­ca ao nível de uma su­pos­ta nar­ra­ti­va fic­cio­nal - a ima­gem do duplo tal como é codi­fi­ca­da na lite­ra­tu­ra fan­tás­ti­ca do come­ço do sécu­lo XX, enquan­to obscu­ro fan­tas­ma e pro­gres­si­va des-rea­li­za­ção do eu - mas enquan­to con­cre­to dis­po­si­ti­vo de esva­zia­men­to reti­nia­no e mimé­ti­co da ima­gem, que não é acti­va­da por via do reco­nhe­ci­men­to visu­al mas da expe­ri­ên­cia viven­cial.

Ou seja, para­do­xal­men­te, ope­ran­do em con­tí­nuo visu­al, den­tro de uma apa­ren­te flui­dez temá­ti­ca, Jorge Mol­der esta­be­le­ce sen­ti­do a par­tir de um apa­ga­men­to de si, do seu rosto, do seu corpo, intro­du­zin­do um tra­ba­lho sobre a pre­sen­ça enquan­to alte­ri­da­de e enquan­to des­con­ti­nui­da­de, agin­do de forma sub­til­men­te des­vi­an­te sobre aque­le que ajus­ta o acto de ver. Na rea­li­da­de, é o inter­va­lo entre duas ima­gens, entre dois ros­tos, um lapso tem­po­ral, aqui­lo que cons­tan­te­men­te somos indu­zi­dos a expe­ri­en­ciar, a des­co­di­fi­car, a inte­rio­ri­zar1.

A queda marca um limi­te, um asso­mo de con­sci­ên­cia. E todo o tra­ba­lho de Jorge Mol­der pos­te­ri­or a este acon­te­ci­men­to é como um ajus­te de con­tas, um cirúr­gi­co tra­ba­lho de rasu­ra, de reme­mo­ra­ção e de rees­cri­ta sobre o erro (ou a errân­cia) e o esque­ci­men­to.

 

 

1.   Com­por­ta­men­to Ani­mal, títu­lo deste texto, é uma série de foto­gra­fi­as a preto e bran­co de Jorge Mol­der. O seu lon­gín­quo e obscu­ro assun­to, aque­le que não vemos, somos nós e a impos­si­bi­li­da­de que, em deter­mi­na­dos momen­tos, se nos colo­ca de nos figu­rar­mos a nós pró­prios. Trata-se, evi­den­te­men­te, de uma espé­cie de medo ori­gi­nal, medo das ori­gens, que acon­te­ce quan­do temos de nos haver con­nos­co mes­mos na raiz daqui­lo que em nós é da ordem do huma­no e daqui­lo que em nós é da ordem do ani­mal.

É um tema anti­go, do prin­cí­pio dos tem­pos, antes da his­tó­ria, um tempo sem nar­ra­ti­va, por­tan­to. Um tempo em que pro­va­vel­men­te, não o sabe­re­mos nunca, a repre­sen­ta­ção emer­ge como um impe­ra­ti­vo, como uma pul­são incon­sci­en­te. Para além, ou aquém, das que­re­las e dis­cus­sões em redor das pin­tu­ras pari­e­tais do pala­e­o­lí­ti­co (o pro­pa­la­do carác­ter mági­co ou sim­bó­li­co), daqui­lo que se con­ven­cio­nou cha­mar arte rupes­tre, algo sobre­le­va: o con­tras­te entre a esque­má­ti­ca (tosca) e infan­til (et pour cause, esta­mos na infân­cia daqui­lo a que have­rí­a­mos de cha­mar de huma­ni­da­de), repre­sen­ta­ção do corpo huma­no e a pro­fi­ci­en­te repre­sen­ta­ção das dife­ren­tes espé­ci­es ani­mais. Fazen­do a eco­no­mia de todo o sim­bo­lis­mo que lhe qui­se­ram atri­bu­ir, tal­vez reme­ter para a expres­são de Bill Viola não seja desa­jus­ta­do. I don't know what it is I am like. Lapi­dar - no duplo sen­ti­do da pala­vra, naqui­lo que ela tem de direc­to e na deri­va­ção de lápi­de - e, no entan­to, ter­ri­vel­men­te justo.

Nesse pro­jec­to, um con­jun­to de epi­só­di­os em vídeo, Bill Viola reflec­te sobre a den­si­da­de geo­ló­gi­ca da vida e da morte, sobre a ori­gem das coi­sas no mundo e o seu desa­pa­re­ci­men­to, esta­be­le­cen­do um para­le­lis­mo entre o com­por­ta­men­to ani­mal e huma­no. O con­di­cio­na­men­to a que o artis­ta se obri­ga pare­ce criar as con­di­ções para que o seu olhar, o grau de repre­sen­ta­ção do seu tra­ba­lho, não seja muito lon­gín­quo daque­le pre­su­mi­vel­men­te adop­ta­do pelo homem pré-his­tó­ri­co. O silên­cio cons­tan­te, a luz escas­sa, a natu­re­za con­tem­pla­ti­va e a dis­tân­cia com que o olhar se detém sobre o outro, a cons­tan­te estra­nhe­za da abor­da­gem, con­cor­rem para essa hipó­te­se.

É de natu­re­za simi­lar o lugar enun­ci­a­do pelas ima­gens que cons­ti­tu­em a série Com­por­ta­men­to Ani­mal. Pode­rí­a­mos dizer que esse lugar é o fim e que a con­sci­ên­cia do fim defi­ne o seu tempo. Para ser­mos mais rigo­ro­sos pode­rí­a­mos acres­cen­tar que se trata do exac­to momen­to de cla­ri­vi­dên­cia em que o ser - o ser como pura potên­cia, o ser enquan­to trans­gres­são, enquan­to ani­mal para a morte - capi­tu­la peran­te a situ­a­ção pré-sacri­fi­ci­al. E esse momen­to de cla­ri­vi­dên­cia, esse limiar de con­sci­ên­cia defi­ne a pró­pria vida enquan­to sen­ti­do de comu­ni­da­de em torno da ques­tão do des­ti­no, da ques­tão de fini­tu­de, sobre­tu­do da con­di­ção de limiar em que a pró­pria exis­tên­cia se cons­ti­tui. Acres­cen­ta­ría­mos, citan­do Batail­le, a pro­pó­si­to da con­di­ção sacri­fi­ci­al e divi­na do ani­mal: «A morte encer­ra um carác­ter trans­gres­si­vo que é pró­prio da con­di­ção ani­mal. Ela entra na pro­fun­di­da­de do ser do ani­mal; é, neste ritu­al san­gren­to, a reve­la­ção dessa pro­fun­di­da­de»1.

Esta é a radi­cal expe­ri­ên­cia esté­ti­ca que Jorge Mol­der pro­põe com a pre­sen­te série.

 

 

2.   O abate. Se qui­ser­mos figu­rar o ambi­en­te apro­pria­do para as elíp­ti­cas ima­gens de Com­por­ta­men­to Ani­mal, o seu hors-champ, diga­mos assim, pode­rí­a­mos pro­cu­rar no con­jun­to de foto­gra­fi­as que, acom­pa­nha­do de André Mas­son, Eli Lotar fez dos mata­dou­ros de La Vil­let­te, em 1929, que mais tarde deu ori­gem ao seu belo e ter­rí­vel docu­men­tá­rio Auber­vil­li­ers, de 1945, nos subúr­bi­os de Paris. As datas não são oca­si­o­nais, reme­ten­do para o con­tex­to de pro­fun­da détres­se então vivi­do na Euro­pa, com o adven­to, a lenta mas segu­ra cor­ro­são, o apo­geu e ocaso do nazis­mo. Todo um clima de pro­fun­da misé­ria moral. São, se qui­ser­mos, dois tra­ba­lhos que se apro­xi­mam sobre­tu­do pelo tema que defi­nem, a exte­rio­ri­da­de de um ter­ri­tó­rio mar­gi­nal. Por um lado, a misé­ria de todos os subúr­bi­os, dos exi­la­dos, reme­ti­dos a uma con­di­ção de não-exis­tên­cia, por outro lado, o mata­dou­ro, cuja situ­a­ção geo­grá­fi­ca, nas mar­gens das cida­des, con­fi­gu­ra a sua mar­gi­na­li­da­de men­tal, «posto em qua­ren­te­na como um navio tran­spor­tan­do cóle­ra».

Um estra­nho comér­cio se esta­be­le­ce entre o capa­taz e a víti­ma a aba­ter, como uma estra­nha core­o­gra­fia. Nada se passa atra­vés do olhar. Não há troca de olhar nas situ­a­ções em que se con­su­ma um sacri­fí­cio, na medi­da em que se esta­be­le­ce uma hie­rar­quia natu­ral entre aque­le que tem o poder de morte e aque­le que está mar­ca­do para mor­rer. O abate é a humi­lha­ção últi­ma, a der­ra­dei­ra pri­va­ção1. Mas, há sem­pre um ter­cei­ro ele­men­to em qual­quer cena, há sem­pre um ponto de fuga. É para aí que se diri­ge o últi­mo olhar da víti­ma, daque­le que vai mor­rer antes do tempo, um olhar em deman­da de pie­da­de, tal­vez, que é a pos­si­bi­li­da­de de um sen­ti­men­to de par­ti­lha. É esse olhar que Jorge Mol­der capta e o ter­cei­ro ele­men­to somos nós, excluí­dos da ima­gem pro­pri­a­men­te dita mas ple­na­men­te inse­ri­dos no mundo, que é onde se joga o des­ti­no das ima­gens e das coi­sas.

Há, por outro lado, um estra­nho comér­cio que se esta­be­le­ce entre aque­le que dá a ver e aque­le que vê. Mas, quan­do o tempo que medeia essa rela­ção é um tempo mais vasto que o hori­zon­te físi­co de cada um, quan­do tor­na­do con­cre­to pela pre­sen­ça do artis­ta, então tal­vez não este­ja­mos já peran­te arte para com­pre­en­der­mos a arte, mas peran­te arte para com­pre­en­der­mos a vida. E a morte.

1 Embora essa questão estivesse já anunciada em, por exemplo, Inox (1995) e TV (1995-96) e tenha sido prosseguida com CD (1998) e Nox (1999), Anatomia e Boxe é um ponto de não retorno no trabalho de Molder e como tal um momento muito particular do seu percurso.

1 Para começar a compreender-se o trabalho de Jorge Molder é aliás essencial passar pela experiência dos bastidores, do laboratório. Esse labor, esse lento e penoso burilamento que as imagens escondem é notavelmente revelado no filme de José Neves, Por Aqui Quase Nunca Ninguém Passa, sobre o trabalho do artista e realizado a pretexto da participação de Jorge Molder na Bienal de Veneza, em 1999, enquanto representante de Portugal. Trata-se, de facto, de uma peça de antologia, retratando como poucas a especificidade do ofício artístico, do aturado trabalho produzido na obscura e esconsa intimidade do atelier.

1 Remete ainda para o filme Por Aqui Quase Nunca Ninguém Passa, onde é visível e muito claro o momento em que o autor deixa de se ver para passar para o lado de lá da realidade. Esse momento, o momento do corte, da obturação, marca fisicamente, concretiza, a condição de limiar de que são empossadas as imagens de Jorge Molder.

1 Georges Bataille, L'Erotisme, Paris, Les Éditions de Minuit, 1957, p. 92.

1 «O matadouro releva da religião no sentido em que os templos das épocas re­cua­das (sem falar, nos nossos dias, dos templos hindus) tinham um duplo uso, ser­vindo ao mesmo tempo para as implorações e para as matanças», diz Georges Bataille no arti­go «Abattoir» publicado na revista Documents.

1 «Eu acredito que existe uma relação secreta entre gesto e fotografia. O poder do ges­to de reassumir e convocar ordens inteiras de potências angélicas constitui-se no obje­ctivo fotográfico e tem na fotografia o seu locus, a sua hora tópica. É esta natureza escatológica do gesto que o fotógrafo sabe captar. Sem, porém, retirar nada da histori­cidade e da singularidade do evento fotográ­fico.» Giorgio Agamben, Il Giornio del Giudizio.

1 E, no entanto, em Bataille como em Molder, o mesmo rigor na formulação, a constante produção de imagens do inconsciente, o mesmo despojamento e economia no gesto, e, mais determinante, o mesmo pudor relativamente às imagens, a mesma fria e ima­nente presença de um sentimento de sagrado.

1 Convém aqui reenviar para dois importantes trabalhos recentes de Jorge Molder, Linha do Tempo (1999/2000) e Le Petit Monde (2001) que, a partir de reflexões sobre o desa­pare­cimento de entes próximos e do espaço deixado vazio, ou seja, o espaço defini­do pela memória, abordavam de forma diversa duas questões da ordem do irrepresentável: a morte e a intimidade.

 

 

3.   A lin­gua­gem. Limiar. A remis­são que a gene­ra­li­da­de dos exe­ge­tas do tra­ba­lho de Jorge Mol­der faz para a omni­pre­sen­ça da lin­gua­gem na sua foto­gra­fia, sendo ver­da­dei­ra, care­ce, no entan­to, de uma peque­na pre­ci­são. É que a pre­sen­ça da lin­gua­gem não pro­vém tanto (ou não deve­rá aí ser pro­cu­ra­da) de afei­ções lite­rá­ri­as ou de pos­sí­veis estra­té­gias meta-nar­ra­ti­vas. A lin­gua­gem é omni­pre­sen­te de forma menos enig­má­ti­ca e mais físi­ca, enquan­to limiar. Há nas ima­gens de Jorge Mol­der (e esta ambi­gui­da­de na for­mu­la­ção é pro­po­si­ta­da, na medi­da em que será atra­vés da recor­ren­te pre­sen­ça do seu rosto que ela se cor­po­ri­za) uma fisi­ci­da­de, uma con­cre­tu­de que é da ordem do corpo, na sua dimen­são de limiar. Um gesto, no sen­ti­do agam­be­nia­no do termo1.

Essa pre­ci­são faz toda a dife­ren­ça. O tra­ba­lho de Jorge Mol­der desen­vol­veu-se enquan­to cons­tru­ção de uma lin­gua­gem irre­du­tí­vel à lin­gua­gem ver­bal, irre­du­tí­vel, con­se­quen­te­men­te, a uma inter­pre­ta­ção por via das pala­vras. Uma lin­gua­gem, diga­mos assim, que toca os limi­tes da lin­gua­gem, para citar ainda Agam­ben. Ima­gens que a cada momen­to tocam o limi­te da ima­gem. Mas, con­vi­rá ainda per­ce­ber qual o esta­tu­to onto­ló­gi­co da ima­gem? A ima­gem não se cons­ti­tui como tes­te­mu­nho ou aber­tu­ra, mas como intran­spo­ní­vel super­fí­cie, povo­a­da de sig­nos, como de peque­nas pin­ce­la­das se tra­tas­se. Cada ima­gem de Jorge Mol­der é, na sua soli­dão, na con­sci­ên­cia da sua tem­po­ra­li­da­de, tam­bém, desíg­nio de um pro­jec­to que se vai cons­tru­in­do.

E aqui reto­ma­mos o ponto zero deste texto para intro­du­zir um con­cei­to que apro­xi­ma ine­xo­ra­vel­men­te o tra­ba­lho de Jorge Mol­der do pen­sa­men­to de Geor­ges Batail­le, por estra­nha ou des­co­ne­xa que à pri­mei­ra vista esta apro­xi­ma­ção possa pare­cer1: fala­mos do con­cei­to de des­con­ti­nui­da­de. Ope­ran­do a par­tir de uma supos­ta iden­ti­da­de, de uma ilu­só­ria mes­mi­da­de, o ine­xo­rá­vel retor­no do seu rosto, Mol­der colo­ca-nos no con­tin­gen­te domí­nio da fac­ti­ci­da­de. Qual a ori­gem e qual o des­ti­no de cada ima­gem, que tra­jec­tó­ria des­cre­vem este corpo e este rosto?

Na rea­li­da­de, se há algo que reme­ta no tra­ba­lho de Jorge Mol­der para a ideia de morte é pre­ci­sa­men­te - já ante­rior­men­te se colo­cou esta ques­tão - o facto de a vir­tu­al exis­tên­cia des­tas ima­gens, e o seu reco­nhe­ci­men­to, ope­rar jus­ta­men­te no campo da des­con­ti­nui­da­de, a par­tir de um tra­ba­lho sobre o lapso, a par­tir de uma ínfi­ma pro­du­ção de dife­ren­ça, a par­tir do dife­ren­ci­al do gesto que nelas se des­cre­ve, dos peque­nos movi­men­tos que elas tran­spor­tam.

Pode­mos assim falar de um tra­ba­lho batail­le­a­no, no sen­ti­do em que é nessa onto­lo­gia - «para nós que somos seres des­con­tí­nuos, a morte tem o sen­ti­do da con­ti­nui­da­de do ser» - que Batail­le como Jorge Mol­der fun­dam a pes­qui­sa que ori­en­ta os res­pec­ti­vos tra­ba­lhos.

Neste sen­ti­do, o títu­lo da série, todo o ambi­en­te que ela inte­rio­ri­za, reme­te para a natu­re­za trans­gres­si­va, sagra­da e reden­to­ra que a morte ani­mal pode encer­rar.

4.   Pál­pe­bra. Há um momen­to em que, fechan­do os olhos e irri­ga­das as mem­bra­nas, o míope vê cla­ra­men­te. Esse ínfi­mo momen­to pre­nun­cia tal­vez a ques­tão do fim, a per­cep­ção do mundo como uma tota­li­da­de, como fazen­do um só com aque­le que ainda ou já não somos, no momen­to de mor­rer, nesse momen­to limi­nar. É por isso into­le­rá­vel a morte antes do tempo, é por isso tam­bém sem­pre irre­pre­sen­tá­vel, a morte. Mor­rer sem ter feito a expe­ri­ên­cia do mundo é tal­vez a últi­ma e mais cruel evi­dên­cia, e é tam­bém o medo mais preg­nan­te.

As ima­gens de Jorge Mol­der abrem um espa­ço de inti­mi­da­de, uma espé­cie de face-a-face sem reco­nhe­ci­men­to, que reme­te para o campo do incon­sci­en­te. São sem­pre aqui­lo que não nos dão, isto é, defi­nem-se em nega­ti­vo. Cons­ti­tu­em-se inva­ri­a­vel­men­te como limiar, como pál­pe­bra, que, fechan­do/obtu­ran­do o olhar, faz ver para o inte­ri­or, para as pro­fun­de­zas do incon­sci­en­te, do esque­ci­men­to, daqui­lo que é vivi­do sem ser expe­ri­en­cia­do. E, no caso de Com­por­ta­men­to Ani­mal, é muito mais aqui­lo que não nos é dado do que aqui­lo que nos é dado. É que são olhos aqui­lo que vemos. Olhos, que não olha­res, no sen­ti­do em que não chega pro­pri­a­men­te a esta­be­le­cer-se uma rela­ção, uma troca. Olhos que nos fixam a par­tir dos con­fins da escu­ri­dão, de todas as escu­ri­dões da huma­ni­da­de, do mundo.

Impor­ta aqui lem­brar uma série do autor - Uma Taxi­der­mia de Papel, 1989 - que, pelo modo como capta um olhar, um gesto, um vulto, um movi­men­to últi­mo e ínfi­mo, é fami­liar desta série. Não somen­te por­que se trata da re­pre­­sen­ta­ção de ani­mais empa­lha­dos - e sabe­mos que a taxi­der­mia é uma prá­ti­ca que con­tra­di­to­ri­a­men­te busca nesse ins­tan­te últi­mo de vida, na fixa­ção do movi­men­to, de um últi­mo gesto, a sua ambí­gua con­di­ção, a sua enig­má­ti­ca pre­sen­ça. Nessa série a morte era então tor­na­da pre­sen­ça, mas o que inte­res­sa ana­li­sar é como o autor reac­ti­vou a po­tên­cia desse momen­to, que lin­gua­gem pro­du­ziu.

Duas ques­tões res­sal­tam, nessa ela­bo­ra­ção do artis­ta: a recon­fi­gu­ra­ção da pre­sen­ça e a recons­ti­tu­i­ção do gesto ou do esgar. A pri­mei­ra, que é de ordem espa­cial, reme­te para a alte­ri­da­de - aque­le ou aqui­lo que me faz face tem um corpo, habi­ta um espa­ço -, a segun­da, de ordem tem­po­ral, reme­te para o des­co­nhe­ci­do, o invi­ví­vel, o irre­pre­sen­tá­vel, a expe­ri­ên­cia da morte - aque­le ou aqui­lo que vai mor­rer, ou que vir­tu­al­men­te já mor­reu, saúda-vos. Ambas nos dese­nham um estra­nho espa­ço de fami­lia­ri­da­de, nos devol­vem um assus­ta­dor olhar órfi­co. Como dizer a minha morte1?

Da luz emer­ge um espa­ço de escu­ri­dão, essa é a trans­fi­gu­ra­do­ra expe­ri­ên­cia que enquan­to espec­ta­do­res faze­mos des­tas ima­gens de Jorge Mol­der. Uma sorte de regres­so a casa, à terra natal. Penso ser esse o ter­ri­tó­rio que a obra de Jorge Mol­der vem defi­nin­do, um regres­so ao ponto de par­ti­da. E isso é feito atra­vés de uma des­ter­ri­to­ri­a­li­za­ção (a ques­tão da alte­ri­da­de que a recor­ren­te re-apre­sen­ta­ção do rosto do artis­ta sem­pre con­vo­ca) e de uma reter­ri­to­ri­a­li­za­ção (movi­men­to ope­ra­do pelo espec­ta­dor, aque­le que se reco­nhe­ce a par­tir da dife­ren­ça radi­cal em que se cons­ti­tu­em estas ima­gens) de que somos parte inte­gran­te a par­tir do momen­to em que entra­mos neste uni­ver­so dis­cur­si­vo. Essa pos­si­bi­li­da­de de reco­nhe­ci­men­to passa-se num lapso de tempo mui­­to curto, quase ine­xis­ten­te, mas que abre um momen­to de cla­ri­vi­dên­cia, como se nos mate­ri­a­li­zas­se o pró­prio acto de ver, a pró­pria visão.

A ques­tão colo­ca-se jus­ta­men­te nesse ponto cego e cons­ti­tui-se como uma impos­si­bi­li­da­de, o que não quer dizer que Jorge Mol­der se refi­ra, seja de que modo for, à foto­gra­fia enquan­to modo de comér­cio com o ine­fá­vel. E a ques­tão é a seguin­te: será que o olhar, esse olhar final, esse olhar refle­xo, retros­pec­ti­vo, a um tempo cla­ri­vi­den­te e reden­tor, pode gerar a pala­vra? Não será já um olhar cego, sem tempo, sem lugar, sem nome?

Posfácio

 

 

 

 

 

«Tan­tos ani­mais no mundo e tudo o que per­de­mos: a ino­cen­te cru­el­da­de, a opaca mons­tru­o­si­da­de dos olhos, que mal se dis­tin­guem das peque­nas bolhas que se for­­mam à super­fí­cie da lama, o hor­ror liga­do à vida como uma ár­vo­re à luz.»

Geor­ges Batail­le (Abat­toir, Docu­ments)