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ENTRE VISTA
2007-01-13
De entre os artistas contemporaneos que exploram os domínios da fotografia Jorge Molder é o que mais insistentemente tem questionado e até forçado as fronteiras da disciplina. Este exercício - que foi ganhando corpo na representação de continuas viagens entre seres desenacarnados (ele enqunto modelo será apenas forma?) dá à sua obra uma força peculiar que emerge da agonia de ultrapassar as próprias limitações. Num quadro de estrita elaboração contemporánea de tradição modernista (montagem e re-contextualização) cada momento fotográfico vai-se desprendendo de um todo maior, e nesse processo que é também o da fabricação do fantástico se inicia a apropriação dos atributos do “intruso” e a desconstrução e reapropriação própria ao processo fotográfico. Assim vai fazendo evoluir a investigação sobre o conceito de auto-retrato/representação, sobre as questões da percepção dos fenómenos da memória e aborda as pequenas transgressões ao género, sempre por dilatação de códigos e, poderiamos dizer, tempos de exposição.
Nunca quis cingir-se à história do medium (porque sabe que essa história está em devir e faz parte dela) ou dobrar-se à técnica (exímio impressor das suas provas e hoje investigando a impressão digital); miscigenou labor com reflexões próprias à escrita, ao desenho, à escultura, à filosofia e à crítica de arte, sem nunca se desviar de um percurso marcado por resultados pessoais. Tudo isto por necessidade de compreender o território onde decidiu actuar. Fez-nos partícipes dessa actuação total deixando desde muito cedo indiciar que ficção e realidade visivel ou, se quisermos e na mesma ordem, verdade e mentira podem ser vistos, cada um, com dois pesos e duas medidas e nesse paradoxo e nos interstícios que resultam da eliminação de alguma informação se vão desenhando os elementos do paradoxal que povoam as suas fotografias.
É da tradição definir auto-retrato como a exposição máxima de um rosto ou o contacto entre entre dois olhos, um o do fotógrafo e outro o do fotografado. É neste diálogo fundador de distanciamento mais do que de intimidade que Jorge Molder inscreve, por entre “espelhos e fumos”, o desejo de abordar as possibilidades da auto-representação. Perversa e cheia de resignação – combate e queda – é a obra de Jorge Molder que também indicia quão enganoso é o discurso da unidade na multiplicidade. Pois se ele se cinge aos seus próprios “eus” é por analogia e contraste com todos os outros “eus-criadores” que elegeu como co-parceiros da sua obra.
Um percurso visto como um périplo que se planifica a partir de acontecimentos anteriores e não de memórias, e lhe permite forçar-se a um último desafio: deixar de estar, literalmente, na fotografia. Mais fotografo do que alguma vez foi?
Waiters … quase o principio da exposiçao Algum tempo antes um fim possivel (o contrario também é verdade) …que tempo é este que esta também enunciado em Curtas Metragens, e que parece ser ao mesmo tempo o modo como define o espaço na sua obra ?
Penso ser possível, na verdade, aproximar os Waiters de Curtas Metragens. Trata-se nos dois casos daquele que espera, do que procura inevitavelmente alguma coisa que envolve o tempo. Só por desatenção é possível confundir a espera com um tempo julgado a priori com menor valor, menos estimável. Tendemos a ver a espera unicamente como um elemento desencadeador de ansiedade, o que pode ser verdade, mas não é sempre verdadeiro. A espera pode ser geradora de um tempo mais denso e mais rico, que constrói uma jornada menos automática e com mais sentido Na aporia da flecha o movimento é decomposto em instantes, numa sucessão de momentos, que terminam por apagar a dinâmica do projéctil e reduzi-la à pura imobilidade. Contudo, na vida há instantes tão instantâneos e tão decisivos como os súbitos vislumbres do amor e outros instantes tão desconfortantes e lentos como a eternidade. É esta irregularidade que torna o tempo interessante. A cadência regular e isomórfica, a dos instantes sempre idênticos do pêndulo, é decididamente assustadora. É a cadência do tempo que falta para o fim e tudo ser dado como terminado. A propósito do meu vídeo Linha do Tempo escrevi, em tempos que ele mostrava um homem que percorre incessantemente uma casa como se procurasse alguma coisa que sentimos estar mais dentro dele do que no local que percorre. Creio que o espaço tem sobretudo para mim sempre mais sentido por causa de alguma coisa que não estando lá, sei ou estou quase certo da sua existência. Esta ideia está muito presente, sobretudo, nalguns dos meus trabalhos até aos anos 80.
A sua obra é formalmente constituida por séries de fotografias – estratégia de autonomizar, sem desligar e que deixa um espaço importante a questao da construçao de nexos. Em simultaneo ha um qualidade « eterna » ou « mitica » nas suas obras que eu penso estar muito ligada ao modo como declina a questao da recorrencia . Como podemos entender nestas perspectivas a ocorrência obsessiva e maior do seu rosto ?
O meu trabalho é sempre ou quase – por absoluta embirração com definições definitivas – constituído por séries. Chamo séries, para usar um estilo filosoficamente consagrado, a modelos unívocos e inequívocos de tempo, de pertença e ainda de outros atributos que tenho dificuldade em tornar claros. Sei muito bem quando começa, consigo descobrir como acaba, sou capaz de entender os elementos constitutivos, mas o funcionamento e a sua ocorrência escapam-me por completo. No fundo não é assim tão diferente da vida, compreendemos quase tudo menos um pequeno pormenor essencial. Essa ignorância não deve produzir a nossa descompostura, muito embora seja possível adivinhar nela a origem para as consagradas formas de desconforto e de insegurança. São as célebres questões alfa e ómega. O Espinosa disse que toda a determinação é uma negação, o que significa, no limite, que qualquer sentimento de construção se faz pelo lado da rejeição de tudo o que não lhe pertence. Sei melhor dizer aquilo que uma coisa não é, não é consoante com o tempo, com a forma e com a irmandade. É sempre mais fácil descobrir os outros, aqueles que não são, o mais complicado é caracterizá-los, até porque às vezes não são, aqui neste caso das séries, inimigos, mas unicamente outros, quer dizer, de outro tempo e de outro lado. Isto quase quer dizer que estamos a falar de repetição, uma coisa que sempre me interessou. O princípio do prazer ou a hipótese mais verosímil de entender um comportamento neurótico. Servem aqui então as descontinuidades para poder justificar as diferenças. Vamos ver, uma série instala sempre uma descontinuidade, uma nova descontinuidade, e assim se pode dizer que se trata de algo totalmente novo e que é, em simultâneo, totalmente repetido. Este paradoxo é sempre construtivo, é como uma melodia estafada ou infinita que soa sempre bem. Alguns artistas, em especial os do jazz, sabem-no muito bem. É como o ouriço do Homero, que só sabe uma coisa, mas sabe-a decididamente bem. Uma série é sempre uma sequência narrativa, na aparência, onde nada há para contar, não obstante estarem reunidas condições para fazer despertar o sentido da decifração. São conjuntos de situações suspensas.
A quanto se obriga, quanto exige de si proprio para induzir esse estado de distanciaçao que lhe permite tornar-se cobaia e experimentador ao mesmo tempo ? É também um dado sempre presente, quase um leit motif ? (Nao sendo um estado psicotico, podemos dizer que é um modo de entender a condiçao de artista com um picar de olhos à condiçao humana ? Ou um modo de entender a sua condiçao com um piscar de olhos à condiçao humana ?)
O que for possível no limite do razoável. Quero com isto dizer que há um exercício persistente, creio que seria demasiado chamar-lhe disciplina, mas que tem a haver com um caminho sinuoso e árduo. Esta questão coloca-se relativamente ao que é necessário fazer para que as imagens existam, Tanto na prática que as engendra quanto nos processos materiais que as fabricam. A sabedoria popular encontra sempre uma resposta para alguma coisa e para o seu contrário. Todos os provérbios têm um contra-provérbio. O destino, tirando o dos transportes públicos (que em grego se diz metáforas) é insondável, apesar dos métodos de perscrutação e adivinhação que conhecemos e apesar dos nossos estados de alma que algumas vezes são mais divinatórios e outras vezes soçobram na opacidade do desconhecido. Mas eu acredito na sorte e, quando ela não aparece, tenho a astúcia para a forçar. Na velocidade e na lentidão, em qualquer coisa que nos escapa e que nós perseguimos, perseguimos e procuramos que nos favoreça. Fazemos força, fazemos muito força para que aconteça. Inventamos pequenos estratagemas de ajuda e queremos sempre acreditar que serão estes que vão desta vez ajustar o nosso querer às mudanças necessários. É um pouco como o Capitão Marvel que retirando a camisa encontra a camisola, profere a password e tem tudo o que precisa para despertar os seus poderes. A arte é uma combinação equilibrada do capitão Marvel com o James Bond – a táctica do JB é a de chegar a um lado e agitar as águas para ver o que sucede. Mas também é preciso sorte para saber combinar a sorte e a estratégia. Mas também é preciso estratégia para saber combinar a estratégia com a sorte. Sobre esta relação só tenho a dizer: “Finge que não sabe e não quer responder”. Mas procuro finalmente e sempre voltar e encontrar qualquer saber, porque esta resignação a não conseguir resignar-me é uma regra primeira deste jogo.
Pode, cada série, ser vista como um mecanismo que provoca uma ruptura saudavel, uma distanciação entre a pessoa-objecto, a pessoa-sujeito e aquele que se lhes refere, um mecanismo que ralentiza, e dà a ver o tempo necessario à desmaterializaçao e consequente reunificaçao ?
Tal como a “ordem estabelecida”, mesmo os mais aplicados entusiastas do combate à ordem descobrem sintonias que lhes torna a vida possível. Todas as dessintonias apontam para alguns, mesmo que distantes, diapasões. Para que uma série de fotografias exista e seja autónoma, ela tem de encontrar um número considerável de coincidências que lhe dê sentido e um outro número, ainda mais considerável, de afastamentos que justifiquem a sua existência. Estamos sempre a procurar estabelecer comparações, a vida e a arte tratam disto. Estou a falar das grandes obras de arte que marcaram roturas, dos grandes festejos populares, de algumas obras de arte que alguém amou e de alguns acontecimentos discretos que só alguém conheceu. Tanto faz. As minhas imagens têm a haver com isto tudo. Pergunta-me se gosto mais do estilo confessional ou do épico: “Não sabe, não responde”. Mas uma série inclui momentos desiguais e outras diferenças que pressupõem relações e experiências igualmente diferenciadas. É como um filme que fosse mostrado com diferentes intensidades de luz de projecção e a diferentes velocidades. Voltar ao mesmo ponto. Revisitar. Creio ser este o sentido da sua questão e creio ser possível depreender das minhas respostas anteriores um esboço de resposta. Tenho um neto que pede sempre as coisas cada vez em voz mais baixa, até quase se tornar inaudível como um segredo, enfraquecendo substancialmente a nossa capacidade de recusar. Voltamos ao problema da repetição e às formas como esta pode ter sentido e ser igualmente eficaz. Os caminhos do Senhor não são tão variados como gostaríamos, somos nós que temos que os descobrir (inventar, imaginar) e somos nós que temod de dar conta do recado. Pode ser que essa descoberta seja mesmo algo novo e não algo já nosso conhecido, pode ser mesmo inovador e que essa sensação de déja vu não passe de um reflexo deixado como no Matrix.
A sua obra pode ser vista como exercicio que enfrenta o tédio (também colectivo) através de um exercicio individual - que podemos ver como memoria e apelo à transformaçao. Falemos do tédio .
O tédio, que incrimina à partida um estado de alma como improdutivo, aponta, no meu entender, para um impasse que a imagem do ciclista do Becket, porventura bem “meu próximo”, a quem não é permitido parar e que não pode continuar a andar porque ignora o seu destino e para o conhecer teria de parar para poder pensar, exemplifica. Mas também aqui, como noutros casos, é possível procurar demonstrar o seu contrário. O pintor Jorge Martins costumava dizer que a diferença entre um profissional e um amador é que o profissional está sempre a fazer o mesmo. Talvez preferisse chamar àquele que está sempre a fazer o mesmo um crente, não no mau sentido da religião mas no bom sentido, quiçá mais humilde mas mais controlado, daquele que faz porque pensa, sente e tem a convicção que o fazer, e o fazer repetido, criam por si só qualquer coisa. Por isso, o tédio, a inutilidade e o insignificante não são, ou pelo menos não devem ser, tomados apenas por aquilo que parecem de imediato. Como dizia o da célebre anedota sobre o sexo, com as imagens, as fotografias, com as obras de arte em geral, é sempre tudo muito parecido. Por outro lado, a memória e os processos de transformação são uma e a mesma coisa. Entendo que a revelação deste segredo possa surpreender ou mesmo magoar, mas é mesmo assim. Passo a explicar: aparentemente somos levados a pensar que a memória nos faz sempre voltar ao mesmo ponto e viver, ou melhor reviver, o mesmo com mais ou menos os mesmos ingredientes, o que é verdade. Mas também é verdade que esse movimento de regresso é produtivo, é ele que se engendra a possibilidade de uma nova deslocação. A arte é esse vai-vem, como tão sublimemente o mostrou João César Monteiro: o pequeno autocarro que se move sempre pelo mesmo sítio e o movimento infinito e eterno do olhar. “Algum Tempo Antes”, por exemplo, é um trabalho especialmente feito para o sítio do CGAC onde vai ser apresentado, o que de alguma forma me acontece pela primeira vez, porque eu nunca pensei muito (ou melhor, sempre me interessou pouco) o que faço por relação com o espaço onde é mostrado, o que não quer dizer que o (ou os) espaço(s) não me interesse(m) mas que o meu interesse é de outra ordem. Achei nele uma boa metáfora para abismo e queda que são “momentos ” por onde tenho andado e que ao fim e ao cabo são fronteiras ou limites como quaiquer outros. Penso que sem o sentido do peso, que apenas se pode ganhar caíndo, é mesmo muito difícil voar. Mas isto aprendi-o com alguns bons amigos, como a figura mostra. Penso ser este um sentido possível que podemos dar ao que temos vindo a chamar experimentação
O seu vestuario ( elo entre ocorrências que vai ligando series) é um artefacto do real, da sua vida presente. Mas, se me permite, tanto na obra como na vida essa ligaçao é ambigua : por um quase igual a tantos e por outro profundamente diferente, quase um provocador que questiona o discurso sobre a identidade individual e a das mascaras que lhe esta associada. Que papel joga, de facto, na sua obra ?
O vestuário tem a haver comigo e com o Magritte. Tenho, entre muitos outros, dívidas para comigo e para com ele. Comigo porque em miúdo, em tempos tão diferentes, se vestia assim para ao mesmo tempo agradar e não dar demasiadamente nas vistas e eu sempre achei que gostava de vestir assim, em primeiro lugar porque gostava e em segundo porque, por vezes, me podia vestir totalmente diferente e poder estabelecer uma comparação. Ainda novo fui com a Filomena a Bruxelas visitar um amigo dela que estava a estudar lá, e isso foi num tempo em que o Magritte era ainda vivo e já era um Deus na terra: foi por aí quando o Marcel Broodthaers e o Duane Michals o fotografaram. Falámos muito sobre ele e percebi que ele tinha estabelecido um personagem padrão a partir de si, algo que também tinha a haver com o seu peculiar modo de vestir. Foi só depois que prestei a atenção ao Francis Bacon e conheci o Michelangello Pistoletto dos anos 50.
Aquilo que descobre de si – os fragmentos de uma verdade maior –introduzem na sua obra alguma tensao entre individual e colectivo. Tal como Conrad a sua obra é tambem uma obra comprometida com o conhecimento e com os custos dessa tarefa. Como relaciona o devir do seu trabalho com a experiência de dirigir um centro de arte ?
Gosto imenso, nem pode imaginar, desta sua aproximação ao Conrad e a essa ideia dos custos de uma tarefa. Descobri cedo que precisava de qualquer coisa que tivesse proximidade com a arte, já que a minha relação com o mundo se afastava com firmeza do ensino. Procurei os artistas e as suas obras, porque senti que através deles assegurava uma ligação que para mim era essencial desenvolver. Graças a eles consigo manter uma larga parte da minha respiração O facto de dirigir um centro de arte inibe uma larga série de contactos e trocas, por razões, de decência, morais e deontológicas. Mas certamente perceberá que eu estou claramente a ganhar.
Fotografo …uma categoria apropriada?
As categorias estão sempre sujeitas a deslocações, e eu não posso escapar a esse destino. Para as “coisas”, e aqui este termo na sua indeterminação serve às mil maravilhas, que vou procurando fazer, vou usando aquilo que conheço e aquilo que posso vir a conhecer. E este conhecimento tem a ver com um infinito número de coisas (outras) que podem estar a acontecer à minha volta, com um conjunto consagrado de obras que me apaixonam, com algumas pessoas que estimo, com outras sem as quais a vida teria pouco sentido e também com formas conceptuais e materiais de realização . Entre estas últimas a fotografia é, naturalmente a que melhor conheço, mas à qual não me sinto minimamente ligado por qualquer laço indissolúvel e portanto….
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